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quinta-feira, 7 de abril de 2016

Mãe de menina trans pede veto para lei que proíbe discussão de gênero.

Desde os três anos a criança mostrou mais intimidades com brincadeiras de menina (Foto: Fernando Brito/G1)

Com quatro anos, criança jogou fora todas as roupas de menino. Caso lei seja sancionada, família de criança teme pela integridade da filha. A mãe de uma criança trans de 5 anos escreveu uma carta para o Prefeito de Teresina, Firmino Filho (PSDB), pedindo que ele vete o projeto de lei que proíbe a discussão de gênero em escolas da capital. (VEJA FOTOS E +)Além de considerar o PL retrógado, a família da pequena teme que a não abordagem sobre transgêneros coloque em risco a integridade da criança e comprometa o convívio social com outras crianças.

“Onde fica a orientação do MEC para trabalhar com temas transversais? O que será das outras crianças como Paty*? Como a administração municipal pretende fazer a inclusão nestes casos? O senhor já parou para pensar que crianças também sofrem homofobia e transfobia? Com discussões tão avançadas sobre o tema, por que sancionar essa lei que atrasa o desenvolvimento da sociedade? Pois não falar no assunto não vai fazer Patys, as Lauras, as Milenas e os Vitos desaparecerem da sociedade”, escreveu, completando “fica o apelo de uma mãe pela igualdade”.
Paty brinca com a irmã (Foto: Fernando Brito/G1)Segundo o Projeto de lei n° 20/2016, de autoria da vereadora Cida Santiago (PHS), fica proibida a distribuição, utilização, exposição, apresentação, recomendação, indicação e divulgação de livros, publicações, projetos, palestras, folders, cartazes, filmes, vídeos, faixas ou qualquer tipo de material, lúdico, didático ou paradidático, físico ou digital contendo manifestação da ideologia de gênero nas escolas municipais de Teresina.
O projeto foi aprovado pela Câmara de Teresina e aguarda apenas a sanção do Prefeito de Teresina, Firmino Filho (PSDB). Grupo ligados aos direitos humanos, direitos LGBTs, bem como Ministério Público pediram o veto completo ao projeto com o argumento de que coloca direitos dos cidadãos em risco.“Você não falar sobre transgênero não vai fazê-las sumir, vai apenas excluir essas pessoas. A gente não pode andar para trás, temos que evoluir. Com a aprovação de uma lei como essa, as Patys ficarão desamparadas. Por desconhecimento, você vai matar a vida escolar de um ser humano”, disse a mãe da menina, que pediu para não ter a identidade divulgada.
'Aceitei que minha filha fosse menina para que ela pudesse ser feliz', diz mãe de Paty (Foto: Fernando Brito/G1)Descoberta
A mãe de Patrícia conta que sua filha tem corpo de menino e foi criado como tal, recebendo brinquedos e roupas masculinas. Entretanto, com menos de um ano, Paty preferia as bonequinhas, copos, e os pratinhos rosa da irmã aos seus utensílios azuis. "Com um ano e meio de idade, ela sempre pedia para vestir as roupas da irmã, assim como fazia da blusa da escola um vestido", disse.

Mesmo em meio a essas manifestações, a mãe afirmou que a criança era conduzida para os padrões masculinos, mas recusava tudo que não fosse feminino.
Ainda em meio a essa divisão entre se sentir como uma menina, mas sendo criada como um garoto, aos quatro anos, a mãe de Patrícia é surpreendida pela filha com um entulho de roupas. “Ela disse que não iria mais vestir roupas de menino. Ela fez um bolo de roupas e ficou apenas com duas peças. Argumentei que ela ficaria sem o que vestir e ela respondeu que dividiria as roupas com a irmã”.“Próximo de completar três anos, um dia ela disse que se chamava Raquel. A gente chamava pelo nome e ela dizia que seu nome era Raquel. A gente tentava conduzir para o padrão do gênero masculino, mas sem nunca dizer que era errado. Ela tinha brinquedos de menino, mas só queria brincar com os de menina”, contou a mãe.

“A gente já tinha acompanhamento psicológico desde os quatro anos. Quando percebi que era irreversível, que meu filho era uma menina, precisava que um profissional me desse sua chancela, que me ajudasse a observar, lidar, acompanhar, entender tudo isso e conduzir a situação da melhor forma possível”, contou a mãe.
O ato de jogar as roupas, bem como uma conversa com a cunhada médica, foram o estopim para a mudança. A mãe passou a pesquisar sobre o assunto, assistir documentários e então tomou consciência de que seu filho era uma criança trans.

Após um ano conturbado de “transformação”, Paty entrou em 2016 em uma nova escola, dessa vez com nome social e sem desconfiança daquelas que já a viram como um menino.

“Como a gente tentava impor um padrão social, ela não dormia, passava o dia inteiro chorando, passava o dia estressada. Todos achavam que o tinham direito de dizer que ela estava errada. Quando ela passou a se vestir como menina, tudo melhorou. Depois que ela mudou de escola, ela se tornou outra criança, uma menina feliz. Aceitei que minha filha fosse menina para que ela pudesse ser feliz”, contou.
Carta
Em meio a polêmica sobre o projeto de lei que proíbe a discussão de gênero nas escolas públicas, a mãe de Paty escreveu a comovente carta pedindo o veto do prefeito de Teresina, Firmino Filho (PSDB), ao PL. O relato descreve toda a transcição do Patrício em Patrícia, relatou como teve de lidar com a família, amigos e escola.
"Foi duro entender e aceitar que minha filha é uma criança trans e foi por amor que tive que 'matar' o menino dentro de mim para que a Paty nascesse", escreveu.
A mãe conta que a "transição" começou na escola onde entrou ainda como menino, que as crianças entenderam e assimilaram Paty, mas o mesmo não aconteceu com os adultos. "Paty foi matriculada na escola ainda um menino, quando começamos a fazer a transição foi difícil para os adultos entenderem, enquanto as crianças aceitaram a novidade normalmente".
Decidida a mudar de escola, a mãe encontrou mais um empecilho, nenhuma das seis escolas particulares procuradas se disponibilizou a acolher o caso de Paty. "Nenhuma das escolas que eu visitei (e podia pagar) me acolheu. Uma chegou a me pedir um laudo psiquiátrico alegando a doença da minha filha; em outra as vagas desapareciam ou eram marcadas reuniões que nunca aconteciam. Estava claro que ninguém sabia lidar com o assunto".
Com a ajuda do Ministério Público do Piauí, a família foi procurar uma escola pública que tem obrigação de ter políticas inclusivas. "Foi a melhor atitude que tomei".
"Senhor Prefeito, a questão de gênero é uma realidade na rede pública Municipal, a Paty é a prova disso. Por isso, venho através desta pedir o veto da lei que veda a distribuição, exposição e divulgação de material didático contendo manifestações de gênero nos estabelecimentos de ensino da rede pública Municipal, pois é contraditório existir leis de inclusão de pessoas LGBT e não poder falar sobre elas", escreveu a mãe..
*Patrícia é um nome fictício para preservar a identidade da criança.
FONTE: Pedro Santiago-G1 PI
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